Comer, estudar, trabalhar

abr 18

Comer, estudar, trabalhar

Conhecem a história do livro “Comer, Rezar, Amar”, de Elizabeth Gilbert, que virou filme estrelado por Julia Roberts e Javier Barden? É uma das minhas tramas preferidas, porque além de a protagonista encarar de frente o medo de mudar e correr atrás dos seus sonhos, é baseado em uma história real, o que torna tudo muito mais legal. Mas esse post é para contar que, embora eu admire muito isso tudo, minha vida anda justamente no sentido oposto.

Se comecei o ano dizendo, entre muitas outras coisas, que em 2014 eu não iria colocar o trabalho como prioridade na minha vida, esse primeiro trimestre já veio como um tapa na cara muito bem dado para dizer: “Sabe de nada, inocente!”

Tenho trabalhado como nunca! E embora pareça meio #mimimi ficar falando isso em posts no blog, é a mais pura verdade. De certa foram, é uma escolha minha: sempre soube o que me esperava e mergulhei de corpo, alma e coração. Mas de outras formas, tem um pouco a ver como eu não saber impor limites, ser boazinha demais e nunca dizer não. Absorvo demandas em excesso, corro para cumprir prazos, entro mais cedo para ajudar aqui, saio mais tarde para quebrar um galho ali. E acabo simplesmente cansada.

Mas calma que a minha vida não é feita só de trabalho. E como tudo acontece junto e misturado, estou terminando minha pós-graduação neste mesmo semestre, o que significa que, além de dar conta das duas últimas disciplinas, preciso entregar aquela coisa bacana chamada TCC. Acho também importante ressaltar que minha casa está numa reforma infinita. E que todos os meus prazos – T-O-D-O-S – são para meados de maio. É, tipo maio, o mês que vem, sabe? Então… Resumindo, os fins de semana e feriados que não trabalho, estudo. Se não estudo, escrevo (vocês estão lendo, entendem? =p), ou surge um frila aqui outro ali.

Mas o mais curioso é quando finalmente estou de folga; quando posso dormir, assistir TV, colocar todas as séries e livros em dia; quando posso curtir a natureza do sítio, comer chocolate e curtir o colinho de mãe; quando posso fazer NADA; eu simplesmente me sinto culpada. Afinal, quantas coisas úteis eu poderia estar fazendo ou de que forma eu estaria sendo mais produtiva se não estivesse simplesmente curtindo a delícia do ócio? Adiantando o TCC, finalizando os trabalhos da pós, atualizando aquele frila que está parado… Tudo e qualquer coisa, menos descansando e fazendo coisas que eu realmente quero fazer.

 

workaholic2

 

Quase não tenho mais tempo para os meus amigos, muitas vezes saio de casa com minha família dormindo e ao voltar já estão na cama de novo, não tenho mais tempo, muito menos ânimo, para exercícios físicos, desconto minha ansiedade na comida e já estou sentindo que os sete quilos que perdi no ano passado estão começando a aparecer em mim novamente. Aliás, os poucos momentos de diversão e prazer que tenho tido são, em geral, acompanhados de um belo prato de comida bastante calórico, como se fosse alimentar o vazio do meu coração. Se vou ler um livro, durmo antes de concluir o capítulo. Para conseguir ir a médicos, fazer exames e até mesmo frequentar a terapia, preciso madrugar para que eu esteja liberada logo. Quando quis cortar o cabelo, dei graças a Deus que o salão funciona aos domingos. Falando em domingo, nem mais à missa das 11h, que tanto gosto, tenho ido.

Tenho dormido pouco, comido demais, sentido de menos. Eu me envolvi de uma maneira tão profunda num ciclo de estresse, que não sei mais como retomar o equilíbrio da minha vida.

Há alguns meses, minha médica ficou muito brava por conta de uma alta de pressão que nunca havia tido antes e me deu uma bronca ao dizer que eu estava “descompensada clinicamente”. Quando terminou o sermão mais do que justo, me perguntou:

– Pelo menos está valendo a pena todo esse esforço de colocar sua saúde em risco? Você está feliz e ganhando muito dinheiro? 

Respondi em forma de silêncio. Fiquei com vergonha de mim mesma. Não sei se isso é o mundo corporativo, se é São Paulo, se é o capitalismo ou o que é. Só sei que vamos nos autoeganando na busca por cada vez mais conquistas, mas muitas vezes não saímos do lugar na falsa ganância de que, um dia, tudo vai mudar. Mas não vai. E nós precisamos saber a hora de parar, de dizer não, de pedir para sair.

Em minha última viagem, no Carnaval, visitei um grande amigo que mora em Barcelona – lugar, aliás, em que as pessoas sabem viver e apreciar a vida com gosto – e ele me disse:

– Talita, querida, o seu maior problema é que seu único foco é sua vida profissional. 

Desde então, não tiro essa frase da cabeça. Fico me perguntando se eu trabalho para viver, ou se vivo para trabalhar. Ultimamente, tenho me sentido tão esgotada física e psicologicamente que me encorajei a entender a realidade da minha situação e, acima de tudo, a me dar prazos para tomar atitudes.

É importante ressaltar que eu sou uma pessoa abençoada: amo minha profissão, sou extremamente grata pelo meu emprego que me traz muitas felicidades e orgulho do que faço, me aprofundo academicamente naquilo que gosto e que escolhi. Mas é que às vezes, a gente precisa ir além. E ser feliz requer coragem.

Sinto que perdi o controle da minha vida pessoal para essa infinidade de obrigações em que me meti por escolha própria. Achei que se me enfiasse de cabeça em todas essas ocupações, os outros problemas iriam simplesmente sumir. Parece mais fácil se atolar de trabalho do que pensar naquele amor mal resolvido. Ou parece que quando me encho de atividades extra-curriculares, é mais fácil lidar com os quase 30 ainda não realizados. Afinal, encarar a vida de frente é coisa de gente adulta e madura; e daí, quem sabe, se eu me tornar uma workaholic, eu também não viro adulta, né?

Isso não deu em nada. Estou esgotada. E em busca do equilíbrio que, como boa libriana que sou, tanto prezo. E meu primeiro desafio vai ser aprender a fazer nada e, principalmente, curtir esse momento SEM culpa. Afinal, se tem uma coisa que minha paixão eterna por Roma (e pela Itália em geral) me ensinou é a leveza do “il dolce far niente“.

 

dolce far nient

 

Talita Camargo, 28 anos, é jornalista e está sempre conectada. Apaixonada por livros e cinema, vive para viajar o mundo e adora carboidratos. Libriana, sofre com o conflito da dúvida e busca o equilíbrio. Acredita no amor sincero e, para ela, pensamentos positivos atraem coisas positivas. Sempre!
Share Button

8 comments

  1. Olá Talita, acabei de conhecer seu blog, conheci pelo blog Pequenos Exageros, adorei ele. Seu texto ficou muito bom, retrata bem a vida da gente, deixamos levar pelos “deveres e esquecemos os direitos”.
    Beijoss

    http://dez-pra-meia-noite.blogspot.com.br/

    • Talita Camargo /

      Oi Grazielle, tudo bem?
      Obrigada pelo carinho!
      E eu nem sabia que o Blog Pequenos Exageros tinha feito essa divulgação! Sua dica foi ótima, acabei de comentar por lá! Aliás, vou aproveitar e conferir o seu tb!
      Espero que você continue acompanhando nossos dramas femininos por aqui, rs!
      Beijos!

  2. Olá meninas!

    Gostei bastante do conteúdo do blog! Estarei aqui sempre que possível!

    Tem sorteio no BomBom florzinhas, passem lá 😉 !!!

    Bjss.

    Aline Laitarte – http://www.bomboneca.blogspot.com

    • Talita Camargo /

      Oi Aline! que delícia ganhar novas leitoras!!! Seja muito bem-vinda e se sinta à vontade!!! 🙂

  3. Conheci seu blog através do blog pequenos exageros e adorei tudo desde a cor até seu logo, ah e claro amei a postagem, o titulo me chamou muito a atenção!!

    • Talita Camargo /

      Olá Raquel! Que bom que vc curtiu o blog!! Volte sempre!!!

  4. Adriana /

    Tali, a primeira coisa é EXCLUIR a palavra “culpa” da sua vida. Isso já fará muita diferença. A segunda coisa é rever aquela tal questão sobre o que é o sucesso. E a terceira é derrubar a muralha para poder se jogar em outras áreas da vida. Lov U <3

    • Talita Camargo /

      Culpa é aquela palavra que sempre nos acompanha, né, Dri? rs! Mas estou caminhando para isso! Hoje, aliás, não fui trabalhar para ficar ao lado da família num momento de luto. E certamente eu me sentiria culpada antes de perceber que o errado é justamente o sentimento de culpa! 🙂

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*