Crônica de um coração fechado para visitas

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Crônica de um coração fechado para visitas

Não esperava ninguém quando a campainha tocou. Mesmo sem saber se devia abrir a porta, recebi a visita desconhecida com todo afeto e educação. Ela não decepcionou e adentrou minha casa trazendo flores e bombons.

Como boa anfitriã, ofereci um café e a convidei para sentar. A visita, gentil que só ela, me encheu de elogios e galanteios. Passamos a tarde rindo e conversando sobre a vida.

Ao nos despedirmos, convidei-a a voltar quando quisesse. E assim fez. Durante semanas. Passamos excelentes dias, eu com as portas da minha casa completamente abertas para ela.

Até que um dia ela mudou a sua rota habitual. Depois, começou a andar apressada sem tempo para uma visita qualquer. Resolvi encostar o portão, e quando notei que nem mais um telefonema recebia, tranquei a porta novamente.

Passou o tempo e uma nova visita apareceu. Como de costume, a recebi de braços abertos. Já tinha me refeito da desilusão que a visita anterior causou em mim. Doce e atenciosa, ela passou a frequentar o meu canto tão íntimo. Mas, como na história passada, não durou muito para que passasse a visitar outras freguesias.

Na terceira vez fui mais reticente ao ouvir as palmas de alguém a me chamar. Mas, teimosa que sou, abri. Não convidei para entrar de cara. Conversamos uns dias pela janela. Ao sentir confiança, resolvi arriscar. Lá estava mais uma visita sentada no meu sofá, assistindo minha televisão e comendo minha comida. Pouco tempo depois ela sumiu.

Triste e resignada, troquei as chaves de casa, comprei cadeados e antes que minha campainha tocasse novamente coloquei o seguinte aviso no quintal: “Não bata. Neste coração não entra mais visita.”

Fernanda Barreira, 28 anos, é jornalista, paulistana da gema, solteira e corintiana roxa. É conhecida por ser do contra e intolerante, mas promete respirar 327 vezes antes de escrever algo que de algum modo incomode alguém… ou não. É pagar pra ver!

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One comment

  1. GUGA /

    Mesmo teimosa lendo o aviso, a visita insiste em bater palmas, tocar a campainha e chamar pelo nome. Ela senta na sarjeta, em frente ao portão, e se lamenta:

    “Poxa, teria sido um dia maravilhoso se ela saísse para dar uma volta, curtir o mudo afora, quem sabe até passar em minha casa para tomar um café no sofá após um jantar preparado com o maior carinho”.

    E no dia seguinte volta a visita, dessa vez jogando pedrinhas na janela, novamente voltando para casa sozinho. E assim passam-se os dias, até que a visita deixa um bilhete colado na porta:

    “Venha me visitar quando quiser, minha casa estará sempre aberta para ti”

    E em seguida, sozinho mas confiante, foi curtir o mundo afora…

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