Entretenimento de pura reflexão

jul 28

Entretenimento de pura reflexão

Em pleno ano de 2019, quase de 2020, se tem uma coisa que ninguém pode reclamar é da facilidade de acesso a conteúdos de entretenimento. As plataformas de streaming de leitura, de áudio e visual, em versões pagas ou gratuitas, estão aí nos smartphones de quase todos nós.

Filmes, séries, músicas, vídeos, podcasts, livros, audiolivros… Tem opção para todos os gostos, nos mais diversos formatos e idiomas.

Mas uma coisa que eu cobro muito de mim mesma é de não ter um constante entretenimento pela pura diversão. Vejam: essa sou eu, não julgo ninguém, que fique claro. É um compromisso comigo mesma. E acho bem curioso quando sou pega de surpresa em algum conteúdo que achava que seria só um passatempo e, de repente, tem toda uma profundidade da coisa.

Lembro de quando li a trilogia ‘Jogos Vorazes’, de Suzanne Collins. Fiquei impressionada com a crítica social escancarada que a saga trazia por detrás do triângulo amoroso dos protagonistas.
Os meus romances preferidos são os que trazem a história como pano de fundo (e deixo aqui a dica de que John Boyne sabe fazer isso com uma maestria invejável).
Sou uma devoradora de biografias.
Quando assisti La Casa de Papel, não imagina a luta social como real causa de um grupo de ladrões na Casa da Moeda.

Como muitos de vocês sabem, eu vivo minha vida dos e nos livros, e por conta dos anos de experiência e de vivência, sempre afirmo que ninguém descobriu a fórmula do best-seller, mas que todo mundo já entendeu que o que as pessoas gostam mesmo é de uma boa história.

Não é a toa que os storytellers estão bombando por aí. Aliás, Fábio Porchat estreia nesta semana (06/08), um novo programa no canal pago GNT que terá justamente histórias como tema central.

O ponto é que nem só de histórias idealizadas e de ficção se vive. E são justamente as histórias reais que causam o maior impacto, que ajudam a transformar as pessoas e o mundo, porque também são as histórias reais que inspiram as melhores ficções.

Escrevo este texto logo após ter finalmente terminado de assistir a mini série ‘Olhos que condenam‘, disponível na Netflix. E, na sequência, assisti a entrevista dos atores e dos cinco exonerados – como eles se autodenominam – na Oprah, também disponível na mesma plataforma. É um soco no estômago tão, mas tão grande, que demorei um mês para conseguir assistir todos os quatro episódios. Eu, particularmente, não conhecia esta história e passei a ler sobre o assunto para saber se era real oficial. E era. Cinco adolescentes negros foram acusados sem provas de um crime brutal que nunca cometeram e passaram mais de uma década na prisão, até que o verdadeiro culpado resolveu confessar e seu depoimento era contundente com as provas físicas. Eles foram exonerados e indenizados anos depois, mas… bom, preciso mesmo dizer que eles estão quebrados para todo o sempre?

Um sistema jurídico falho, um sistema carcerário lixo, um sistema de comunicação tendencioso, uma opinião pública volátil e enfraquecida. E cinco adolescentes que tiveram suas vidas roubadas porque eram negros e pobres. É uma merda. De verdade. Mas não tem como não assistir, entende? É necessário, é importante.

Há alguns anos fui apresentada ao Rap Nacional. Foi um choque. Fiquei maravilhada com a poesia, com a batida, com os samplers. Fui em muitos shows do Criolo e acho difícil que algum outro show seja tão marcante para mim quanto ‘Criolo e Emicida’, que assisti no Sesc Pompeia há alguns anos. Nunca mais fui a mesma. Descobri muita coisa boa neste universo e se você quer começar por algum lugar, sugiro o novo single do Emicida ‘AmarElo’: é uma porrada!

Ontem escutei meu primeiro audiolivro. Por um acaso, a temática era a mesma, mas com um agravante: também aborda a questão da mulher. Em ‘Quem tem medo do feminismo negro‘, publicado pela Companhia das Letras, a autora Djamila Ribeiro fala, sem nenhum pudor, de como é ruim (para usar um eufemismo) ser mulher, pobre e negra num país misógino, elitista e racista como o Brasil. Eu podia não ler este livro, é claro. Mas dá para ignorar a condição das mulheres no Brasil e no mundo? Dá para ignorar a condição dos negros? Dá para ignorar a situação dos pobres?

É claro que assisto muita comédia romântica e leio muito romance policial porque gosto e esse momento de entretenimento puro é valioso e também necessário. Mas sempre que posso e acho que tenho condições, enfrento a barreira e dou um passo além. Porque sinto que é este passo que vai me transportar para a minha não-realidade e vai me tirar desta zona de conforto de privilegiada: mulher da classe média, hétero, branca… Modelo família Doriana, sabe?

Não é que queira ser politicamente correta o tempo todo, embora seja um exercício que eu pratique diariamente, sem reclamar;  e nem transformar tudo em um debate político. Mas como é que vou entender o resto da sociedade se não sair da minha bolha?

Então, convido todos vocês a experimentarem um entretenimento de reflexão de vez em quando. Os contextos históricos, políticos e econômicos dizem muito sobre os reflexos sociais, tanto de antigamente, quanto da contemporaneidade. E é de extrema relevância darmos atenção à produção cultural e artística que trazem isso à tona, a fim de sermos melhores cidadãos e seres humanos.

E aí… tem alguma dica de entretenimento de reflexão para me dar?

 

Talita Camargo, 33 anos

Libriana, apaixonada de alma transparente, louca alucinada e meio inconsequente, um caso complicado de se entender.
Minha vida é um grande romance de trilhas sonoras e meu caminho é de pensamentos positivos. Sempre!

 

 

Leia mais do que Talita escreveu:

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