Existe vida sem celular?

abr 01

Existe vida sem celular?

Esqueci meu smartphone no carro ontem. Isso significa que eu poderia ter ido até o estacionamento buscá-lo, eu sei. Mas esse trajeto não é tão curto e me tomaria um tempo que a segunda-feira não me disponibilizou. Resolvi aceitar o fato de que eu ficaria um dia inteiro longe do meu telefone. Mas sejamos realistas: o telefone em si, é o de menos, né? Em pleno 2014, ficar sem celular significa estar ausente do mundo que, apesar de virtual, é o que temos de muito próximo do real.

Embora eu trabalhe com internet e graças aos bons anjos dos comunicadores tenha acesso a todos os sites que me são de interesse, incluindo as redes sociais; o PC do escritório não me disponibiliza o WhatsApp, Instagram e nem minha câmera para tirar fotos inúteis do almoço, unhas e afins. E, como conheço em meu eleitorado, fui logo postando no mural do Facebook que estava longe de tão estimada tecnologia, a fim não criar mal-estar. Ainda assim, fui cobrada: “Te mandei WA, não viu?”; “Cadê você que não me responde?”; “Segundona muito cheia, amiga? Não tá nem lendo minhas msgs…”.

Foi nesse dia de semi-abistinência que percebi o quanto as pequenas coisas tecnológicas do dia a dia, que ao mesmo tempo ajudam, facilitam e divertem; incomodam e causam dependência e irritação.

celular05Só para começar, o barulho. Há tempos – tempos MESMO – que meu celular vive no modo silencioso, apenas com as notificações de LED (luzinhas coloridas que piscam de acordo com as respectivas notificações: cada uma tem sua própria cor, é lindo!) e, quando muito, no modo vibratório. Como ligação é o que menos recebo neste aparelho, corro pouco risco de perder alguma. E, quando acontece, geralmente é só retornar porque o identificador de chamadas tá aí pra isso. Mas, aparentemente, devo ser uma das poucas pessoas que pensam assim.

Outro dia eu estava na manicure e, embora muitas pessoas gostem de transformar este espaço público em um momento de desabafo de suas intimidades, eu curto ficar na minha e, pasmem: LER um bom livro. Mas a mocinha fofa só que ao contrário do meu lado não permitiu que eu conseguisse apenas relaxar e focar na minha prazerosa leitura porque, além de o celular dela apitar uma nova mensagem de ZapZap a cada cinco segundos, e de o teclado dela fazer um barulho I-R-R-I-T-A-N-T-E a cada caractere digitado, ela fazia questão de compartilhar com todos no ambiente as mensagens ‘safadas’ que o peguete da vez estava enviando no horário do almoço.

Outro case clássico é no transporte público: é barulho de notificação que não acaba mais: ligação daqui, Messenger do Facebook dali, Whatsapp o tempo todo. No ambiente de trabalho, então, acho que é o que mais tira do sério: será que não passa na cabeça das pessoas que existem outras que estão focadas em suas tarefas e que um celular apitando a cada minuto, além de atrapalhar, incomoda de verdade?

celular03E as mensagens de voz, então? Elas são extremamente úteis, mas não devem ser ouvidas em alto e bom som por todos ao seu redor. Fones de ouvido ou se tranca no banheiro sozinho! Simples assim.  Grupo de WhatsApp é outra coisa que esbarra na linha tênue entre amor e ódio. Porque, apesar de ser uma das invenções que mais facilite a comunicação coletiva, seja para relações pessoais ou profissionais; é cada coisa que as pessoas enviam pra esses grupos que eu me pergunto: POR QUE, MEU DEUS? Vídeos de gente morrendo? Não, obrigada!

Devo ser uma das pessoas mais conectadas que eu mesma conheço. O tempo todo, o dia inteiro, 24/7. A primeira coisa que eu faço quando acordo, antes de levantar da cama, é checar as notificações do celular. Muito provavelmente, se eu não trabalhasse com internet, teria ido até o carro ontem para buscar o meu esquecido smartphone, não importando o quanto tivesse que andar. Mas, ao mesmo tempo, criei uma intolerância com a falta de etiqueta tecnológica.

celular02As pessoas não sabem mais usar o bom senso. E quando digo as pessoas, me incluo nessa. Exigimos respostas imediatas, queremos matar quem visualiza nossas mensagens e não responde imediatamente, invadimos os fins de semana, feriados e férias de todos, sem nem pensar duas vezes; cobramos atenção e exclusividade; ignoramos as regras, as leis e o respeito. Vivemos na era mais imediatista de todas. E na mais carente também. Em tempos em que o acesso ao próximo é tão fácil, entramos num grande acesso de #mimimi porque alguém está ocupado trabalhando, lendo, curtindo a família, assistindo a um filme, dormindo, ou até mesmo vivendo; ao invés de responder mensagens imediatamente.

E, muito embora os meios de comunicação da atualidade sejam de extrema utilidade e incrível facilidade, o telefone e o e-mail ainda não morreram. Não vou nem entrar no fato de que o contato físico e os encontros reais ainda são as melhores opções porque sei como funciona a atualidade. Mas a verdade é que se for urgente, não precisa brigar porque fulano não respondeu a mensagem ou ciclano te ignorou por algumas horas: é só ligar.

Muitos problemas de [falta] de comunicação seriam resolvidos se as pessoas, de fato, se comunicassem. E, num dia inteiro sem celular, percebi que aqueles que querem sempre arranjam um jeitinho de nos encontrar.

E, lá no fundo, todo mundo quer sentir aquele frio na barriga ao ouvir o telefone tocar.

Esqueci meu smartphone no carro ontem e estou viva hoje. Aliás, esqueci meu smartphone no carro ontem e rendi muito no trabalho, escrevi este texto para o blog e, de quebra, ainda zerei as pendências na caixa de entrada do Outlook. Porque é quando se esquece um smartphone no carro que a gente dá prioridade ao que é prioridade. E dá até para viver de verdade.

Foto: Instagram

Talita Camargo, 28 anos, é jornalista e está sempre conectada. Apaixonada por livros e cinema, vive para viajar o mundo e adora carboidratos. Libriana, sofre com o conflito da dúvida e busca o equilíbrio. Acredita no amor sincero e, para ela, pensamentos positivos atraem coisas positivas. Sempre!
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2 comments

  1. Adriana /

    Tali,
    E provavelmente seu almoço (se é que vc teve)foi magnífico, sem sem interrompida por mensagens não tão assim urgentes.

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