[Guest Post] Feijão

maio 16

[Guest Post] Feijão

Ele era exatamente o feijão dentro do pote de sorvete. Decepcionante!

À primeira vista aquela embalagem enchia os olhos. A neve branquinha de gelo em volta da base te convencia, facilmente, que a salvação do seu calor e sede estava ali, ao seu alcance.

Cuidadosa que era, ela não foi direto ao pote, contudo. Sabia que gelo demais também queimava os dedos.

No entanto, isso não a impediu de imaginar quais sabores aquela caixa azul guardava. E por isso, deu a ele seu telefone. E conversaram. Por mensagens, é claro. As pessoas hoje em dia parecem temer a voz, pensava.

De início, a coisa foi engraçada. Ela se divertia com as tentativas dele em elogiá-la das mais diversas maneiras. Todas elas previsíveis. Não porque ela achava que possuía mesmo aquelas qualidades, mas porque tinha certeza que ele seguia um manual de conquistas. Daqueles bem baratos e mal escritos.

Ria por dentro – e às vezes por fora também, em gargalhadas reconfortantes – quando adivinhava em cheio a próxima frase feita que ele lançaria. Foi assim que desconfiou, pela primeira vez, da consistência daquela sobremesa.

coração quebradoMesmo assim deu corda. Afinal, ela poderia estar enganada. Uma pessoa tão instruída, inteligente, bem sucedida e (especialmente) charmosa, não podia ser de toda tola. Pode ser um jogo, concluiu. E se for um jogo, vou jogar também, resolveu.  Não tinha nada mais interessante para fazer naquele fim de ano…

Ela, então, preparou as armas, mas deixou o campo livre.  É do tipo que observa primeiro, age depois. Ele se disse estrategista puro, mas mostrou ser do tipo ansioso, daquele que responde perguntas que não foram feitas e dá satisfações não pedidas.

Ela calou-se mais que falou. Respondeu algumas poucas questões e ouviu algumas muitas histórias. Todas elas cheias de pronomes pessoais em primeira pessoa. E, dessa forma, conseguiu concluir que em casa de ferreiro, espeto é de pau. Ou santo de casa não faz milagres, nas palavras dela.

Aos poucos, a ideia do regalo que regaria sua boca foi derretendo.  É quando se tira o sorvete do freezer, que se percebe sua real consistência (e qualidade!). E aquela ali era bem estranha…

Sabendo mais que queria sobre as coisas que ele fez/faz/faria, ela quis saber o que ele gostava. É que o mundo tá tão invertido que as pessoas esquecem que há gente que se interessa pelo ser em vez do ter, apiedou-se. Além do que, se conhece melhor um homem pelos seus gostos do que pelas suas tarefas, filosofou.

E foi aí que encontrou o feijão!
Caldo grosso e temperado, quando o que ela esperava era leveza e suavidade.
Quentura e apuro no preparo, quando o que ela queria era refrescância e simplicidade.

Ahh, suspirou. Que vida injusta…
Ficou confusa sobre o que fazer, geminiana que era.  Podia jogar o feijão fora. Perderia o pote, mas ganharia o espaço no freezer. Podia comê-lo tal como estava, frio, grosso. Mas não havia vontade em seu estômago (mente e coração) que a motivasse a levar à boca a primeira colher.

Na dúvida, foi prática. Fechou o pote e o guardou.
Talvez eu tenha fome quando o inverno chegar, sorriu maliciosamente.

E não pensou mais no assunto.

feijão 2
*[Guest Post] O Sem Critérios abre as portas para convidados especiais que têm talento para escrever para o mundo tudo aquilo que não conseguem dizer sozinhos.

 

Katya Manira, 28, é jornalista. Luta Krav Maga. Devora livros. Odeia dúvidas. Já sofreu de amor, de bulling e de rinite. Acha que sentir qualquer coisa é melhor do que sentir coisa alguma e que, bom mesmo, é rir até perder a voz. Tem mania de rimas e histórias desde os 11 anos, mas nunca se atreveu a mostrá-las. Até agora…

 

 

 

 

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15 comments

  1. Adriana /

    Katyta, que emoção e orgulho ter você como nossa 1ª guest! E que texto…tão lindo e profundo como você. Parabéns e bem-vinda…sempre <3

  2. Danusa /

    Uma graça de texto, amis! O ninho trufado, teu sorvete favorito, tem embalagem diferente. Presta atenção!

  3. Cássia /

    Não sei porque demorou tanto para mostrar seus textos, Ka! São excelentes! Seu estilo é um misto de objetividade com poesia! Delicioso de ler! Go, Ka!!!

  4. Fernanda Barreira /

    Um texto divertido, doce, poético e verdadeiro. Amei!!!!

  5. Marta Festa /

    Sem palavras. É assim, as poucas vezes que li, reli seus textos. Sempre emocionantes, profundos, sinceros, sensíveis. E, claro, mãe CORUJA que sou, choro! Choro de emoção, de alegria, de orgulho! E hoje, mais feliz ainda, pois decidiu-se “se mostrar”. PARABÉNS! Que venham muitos (sei que existem muitos deles) para nos alegrar. NEOQEAV por toda Eternidade…

  6. Marcello De Vico /

    Taca fogo no pote e arruma outro, com sorvete! haha

  7. rose matuck /

    Que delícia de texto. Sempre soube que essa está é a sua praia. Você tem sensibilidade e leveza como poucos para escrever coisas da vida, da alma, dos amores, das perdas, da amizade. Adoro seu jeito. Mostre mais os seus textos. O mundo agradece. Beijoca.

  8. Luan Nerd (@nerdnoboteco) /

    Lerei de novo com mais calma mais tarde, mas de primeira vista, um bom texto, bknito como quem escreve 🙂

  9. Ivy /

    Ai que orgulho dessa minha amiga. Consegui visualizar todinho esse pote. Rs. Já quero o próximo.

  10. Giu /

    Nessas horas agradeça as fabricantes de freezer por instalarem luz interna, senão teria muita gente comendo feijão na madrugada imaginando ser sorvete.

    Bela forma de comparação entre sensações e relações!

  11. Talita Camargo /

    Muito orgulho de você, Katita! 🙂

  12. Ingrid /

    Orgulho de você minha amiga. Sempre achei que suas palavras deviam ser compartilhadas com o mundo! Impossível nao lê-las. Nos prende toda a atenção, nos faz chorar e esquecer do mundo. Parabéns pelo dom.

  13. Katya /

    Obrigada a cada um de vcs!!
    Especialmente por me motivarem e estarem ao meu lado nos pequenos desafios da vida!!!! =)

    bjss

  14. Rita /

    Gente.. parece que você total me descreveu!!! ATÉ NO SIGNO HAHAHAHA ameeiiii

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