Mãe por 10 semanas

jun 23

Mãe por 10 semanas

Faz um pouco mais de 1 mês que tudo aconteceu. Já voltei a trabalhar e a vida segue normal, com um buraquinho no coração que jamais vai fechar. Não sei se seria menino ou menina, mas para ambos já havíamos escolhido o nome. Não foi planejado, mas nem por isso deixou de ser desejado e amado. Vida e morte que seguem, porque é disso que se trata estar aqui, vivendo na Terra.

Sempre ouvi dizer que as probabilidades de uma mulher engravidar do primeiro filho após os 35 anos é reduzida e que pode levar em média 1 ano. Eu – que tomo anticoncepcional há pelo menos 15 anos – não imaginei que, numa “vacilada”, engravidaria. O corpo mudou, um certo inchaço apareceu, até que minha amiga Vanessinha olhou pra minha cara e disse: Você está gravida! Eu e o Igor (O Cara) nos olhamos pensando: “Não, acho que não, mas por via das dúvidas vamos fazer o teste de farmácia”.

imagesTeste de farmácia feito: Positivo. Segundo teste de farmácia feito: MegaPositivo. Teste de sangue feito: Gravidíssima. Mas, após aquele primeiro choque (e meu agradecimento à Deus por eu ter convênio médico nesse momento) mal deu tempo de ficarmos felizes e a gineco já alertou que meus hormônios estavam baixos demais e que ela acreditava que a gravidez não iria para frente. O jeito era aguardar….palavrinha desgraçada para quem sofre de Transtorno de Ansiedade. Aliás, assim que descobri a gravidez parei com meus remédios, sob orientação médica, e digo que tive uma crise de abstinência absurda. Mas eu era mãe e tinha que aguentar. E aguentei com o coração cheio de amor, fé, insônia e mal-estar.

Primeiro ultrassom e nada do coração. Segundo ultrassom e lá estavam os batimentos cardíacos. Disse a médica: pode ir para casa comemorar o Dia das Mães. Fomos. Compramos dois pares de sapatinhos para contar a grande surpresa para os nossos pais. Mas os hormônios não estavam evoluindo ainda como o esperado e no fundo sabíamos que havia algo errado. Guardamos os sapatinhos e contamos aos nossos pais que talvez seriam avós. Que noticia feliz-triste de se dar.

Na noite antes do terceiro ultrassom sonhei que perdia o bebê. Acordei pela manhã e todos os sintomas da gravidez haviam sumido. Fomos fazer o exame e os batimentos cardíacos do feto também haviam desaparecido. A gravidez não havia evoluído. Motivo: aborto espontâneo provavelmente por incompatibilidade de cromossomos. Acontece em 20% das gravidezes. Eu, que mal sabia sobre gravidez, menos ainda sabia sobre aborto. É triste, muito triste você voltar pra casa com o seu futuro baby sem vida dentro de você.

Cumpri alguns deveres de trabalho que tinha e como meu corpo não expulsou o feto, tive que passar pelo processo de curetagem (que é simples, mas se assemelha um pouco a um parto). Fui internada no sábado e tive alta na segunda-feira. Depois disso, 1 mês de licença-saúde por lei.

É complicado como nossa  vida vira de cabeça para baixo de um dia para outro. É incrível como não temos controle de absolutamente nada nesse mundo. Muito mais do que uma decepção e um imenso sofrimento, essa rápida gravidez me trouxe muitos aprendizados.

Achei que sairia amarga dessa experiência. Achei que me revoltaria.  Achei que não superaria. Mas, por incrível que pareça, saí dessa vivência com muito mais amor no coração. Claro que tive momentos de revolta, principalmente quando todos diziam “Deus sabe o que faz” e eu olhava pro Igor e dizia baixinho “Se mais alguém disser isso vou mandar pra PQP”. Mas descobri que as pessoas dizem isso ou porque realmente acreditam nisso ou, principalmente, não sabem o que falar.

Acho que esse foi um dos motivos que me inspirou a escrever esse texto tão pessoal. Não tenha medo de falar que sente muito. Não tente entender o que a pessoa está passando, apenas estenda as mãos. Respeite a crença da pessoa e não tente impor a sua. Fale abertamente de ABORTO, de MORTE. Sério, nossa sociedade precisa falar disso. Escute os desabafos da quase-mãe. Não faça cara de espanto se ela lhe disser que provavelmente não tentará engravidar novamente. É um direito dela e não é um julgamento seu.

A descoberta da gravidez foi até uma fase engraçada quando vi a empolgação das que já são mães me olhando sorridentes, pois agora eu faria parte do grupinho delas. É até um pouco arrogante essa postura. Nossa sociedade PRECISA entender que uma mulher não é feliz apenas se for mãe.

Acho que eu escreveria um livro sobre o assunto, pois foram tantos detalhes que aconteceram nesses 20 dias que não cabem aqui. Me lembro bem que enquanto passava nos trocentos médicos e enquanto fiquei internada, imaginava o sofrimento daquelas mães que estavam passando pela mesma situação, mas dependendo do SUS e vivendo sob inúmeros olhares ignorantes que apontavam: será que essa daí não forçou o aborto??? Juro que nesse pior momento da minha vida pensei muito (mais muito mesmo) nas pessoas que não têm nenhum apoio nesse momento.

Eu tive muito apoio. Foram flores, visitas, mensagens diárias, abraços, amor e muita oração que recebi de todos os lados dos que souberam da história. Isso fez toda a diferença. Escreveria um capitulo só para falar sobre o apoio incondicional que MEU CARA me deu, mesmo sofrendo muito também, pois é OBVIO que o quase-pai também sofre e é meio colocadinho de lado nesse momento.

Mãe, pai, irmã: MUITO OBRIGADA também pelo amor e apoio.

Ter meu Rudá todos os dias ao meu lado durante a recuperação fez o tempo ficar mais leve e crer ainda mais que ele é meu anjinho de 4 patas. Também li muito e investi em coisas que amo, por exemplo Celebração de Casamentos. Fiz um curso, montei site, divulguei e joguei minha energia nesse hobbie. Isso é importante para a recuperação da cabeça.

No coração, ficará para sempre o lugarzinho do nosso baby, que sei que precisava dessa rápida encarnação para sua evolução espiritual. Não saio dessa experiência mais forte ou melhor. Pelo contrário, saio pequeninha diante da nossa incapacidade de mudar as decisões da vida. Saio reverenciando a sabedoria do corpo humano. Saio imensamente grata por essa vivência me mostrar o quão pequenos somos, mas o quanto amamos a vida.

Se vamos ter filhos? De coração, não sei. Não cabe nem pensar nisso agora. Vamos viver um dia por vez e esperar a vida nos ajudar a decidir.

OBS: Os sapatinhos foram para doação 🙂

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4 comments

  1. Mariane Melo /

    #simplesmenteemocionada
    Belíssimas palavras… E depoimento impecável!!!

  2. Danusa /

    Todo meu carinho para vc, Dri. Beijos!

  3. Katia /

    oi amei seu blog gostei dos seus textos principalmente deste aqui que mudou o meu pensamento http://www.semcriterios.com.br/quando-o-homem-quer-ele-corre-atras/

    • Talita Camargo /

      Obrigada, Katia! Seja sempre bem-vinda!

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