Me respeitem

out 27

Me respeitem

Nos últimos dias os temas violência, mulher, redação do Enem, pedofilia, MasterChef Júnior e primeiro assédio tomaram conta dos principais meios de comunicação do país e me fizeram refletir muito.

Primeiro, eu tive a sensação bizarra de ser sortuda por nunca ter passado por situações semelhantes às que estavam sendo relatadas. Tem coisa mais louca do que achar que você tem sorte por não ser assediada, violentada, desrespeitada pelo simples fato de ser mulher? Pois é, a partir desse pensamento eu tive certeza de como tudo anda muito errado por aqui.

Depois, analisando mais profundamente, eu percebi que não sou tão “privilegiada” assim. Afinal de contas, eu sou vítima de preconceitos diários. Eu passo por agressões veladas. E, por isso, decidi expor e compartilhar esse tipo de violência, que no meu caso envolve meu amor por um esporte, que, apesar de não ser grave, não deixa de ser cruel.

Eu cresci numa casa com um homem e três mulheres (eu, minha mãe e minha irmã). E esse homem, meu pai, sempre nos tratou como iguais. Tanto é que transmitiu para suas duas filhas a paixão pelo futebol, mais especificamente pelo Corinthians.

Aos 16 anos eu ainda não sabia que escolha profissional fazer, mas tinha uma certeza, trabalharia com esportes. Um dia, minha escola proporcionou um encontro dos alunos pré-vestibulandos com alguns profissionais bem sucedidos para que pudéssemos conhecer o dia a dia do trabalho exercido por eles. O fisioterapeuta da seleção brasileira foi um dos convidados. Eu me encantei de cara com aquela carreira e decidi: é isso que eu quero pra minha vida. Até conversar com ele por cinco minutos após a palestra e ser surpreendida pela seguinte frase: “Desiste. Sem chance uma mulher trabalhar com fisioterapia no futebol. Se quiser vôlei feminino existe uma possibilidade”. Mas, não, eu não queria vôlei feminino. Eu queria futebol. Então, segui seu conselho, e desisti.

Cursei jornalismo com um único objetivo: trabalhar com comunicação esportiva. E confesso que dei sorte. Meu primeiro estágio foi numa rede de televisão fazendo a cobertura de eventos automobilísticos. Não era um sonho, mas estava muito próximo daquilo que eu queria para o meu futuro. Só que logo eu descobri que nem tudo seria tão maravilhoso como imaginei. Junto comigo, entrou um rapaz que tinha o mesmo conhecimento sobre a categoria que eu, ou seja, nenhum. A diferença é que ele, por ser homem, foi recepcionado como um aprendiz. Alguém que estava ali para conhecer e, em breve, ajudar a equipe. Já eu, fui acolhida como ajudante. Aquela que carrega caixas, faz telefonemas, resolve pequenos pepinos da rotina. Não fui contratada para pensar. Meu chefe não acreditava nessa possibilidade. Não demorou muito para que eu desistisse novamente.

E isso vai além da profissão. Eu sempre gostei de discutir futebol. Muitas vezes, influenciada pelo amor de torcedora, falo besteira. Mas isso acontece comigo e com todos aqueles que vivem a paixão pelo seu time. Só que eu reparei que sempre que entrava num debate, os homens olhavam pra mim com cara de “por que ela está falando sobre isso?”. E me tratavam como café com leite. Meus argumentos não eram levados em consideração, eles não rebatiam minhas críticas, muitas vezes eles diziam: “Ta bom, Fê, mas agora falando sério”, e continuavam a conversa apenas entre eles, afinal, eu sou só a menininha que acha que gosta do esporte de machos.

Ano passado, estava no shopping, e enquanto minha irmã fazia a troca de uma roupa, eu fiquei assistindo ao jogo entre Costa Rica e Grécia pela Copa do Mundo na televisão em frente a uma loja de eletrodomésticos. Eu e outros onze homens. O décimo segundo chegou, parou ao meu lado e perguntou: “quanto está a partida?” (o placar não estava aparecendo na tela naquele momento). Eu, educadamente, respondi: “0 a 0”. Ele, me mediu de cima a baixo, se direcionou a outro telespectador e repetiu a pergunta: “quanto está a partida?”. O outro homem respondeu: “0 a 0”. Então, ele agradeceu. Pode parecer estupidez, mas poucas vezes me senti tão humilhada como naquela ocasião. Uma pessoa desacreditou não só minha capacidade de entender o esporte. Mas, também minha alfabetização, minha compreensão sobre um placar, minha mínima noção. E de graça. Pelo simples fato de eu ser mulher.

Aos poucos fui abandonando a prática de debater o futebol e minhas conversas sobre o assunto se limitam ao básico e a pouquíssimas pessoas, geralmente outras mulheres que, como eu, se interessam pelo assunto, ou meu pai.

Aliás, uma das coisas que me fez parar de puxar esse tema é uma reação muito comum entre os homens (99,9%) e que me irrita absurdamente. Quando eu digo que curto futebol, é muito comum alguém retrucar com um sorriso irônico no rosto e a seguinte pergunta na língua: “Ah, você gosta? Então o que é um impedimento?”. Oi????? É sério isso? Uma regra da modalidade define meu gosto e interesse? Além disso, qualquer pessoa com no mínimo dois neurônios consegue entender o significado de impedimento, seja um amante do futebol ou não. Os homens realmente acreditam que uma mulher não tem capacidade para isso?

E outra coisa, desde quando se deve questionar gostos alheios? Se um cara me disser que entende de moda, eu jamais vou perguntar se ele sabe o que é um scarpin. Ou se outro disser que adora ciências, não questionarei a função da mitocôndria. Nem se algum me falar que manja de matemática, não puxarei uma chamada oral da tabuada.

Eu não preciso testar os gostos ou conhecimentos alheios. E espero que não façam o mesmo comigo. Aliás, um recado aos homens: não me testem, não duvidem da minha inteligência, não questionem minha capacidade. Apenas me respeitem.

 

Obs: clique aqui e assista um vídeo amor da Jout Jout sobre outros tipos de violência contra a mulher!

Fernanda Barreira, 29 anos, é jornalista, paulistana da gema, solteira e corintiana roxa. É conhecida por ser do contra e intolerante, mas promete respirar 327 vezes antes de escrever algo que de algum modo incomode alguém… ou não. É pagar pra ver!
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3 comments

  1. Orgulho define!

  2. Adriana /

    Mandou muito bem Fer….eu não entendo bulhufas de esportes em geral (nem de escanteio), mas entendo que vivemos numa sociedade machista que acredita que o Feminismo é desnecessário. Espera você casar e descobrirem que você ODEIA e NÃO FAZ (ao menos que necessário) trabalhos domésticos…aí você vai sentir a ira machista-velada das mulheres sobre você.

    Ahhhh, tenho um orgulho do caralho (nesse caso da buceta) de você <3

    • Fernanda Barreira /

      Hahahahahahahaha Dri, vc é demais! Fazendo trabalhos domésticos ou não. Te amo <3

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