Posta banana num dia, espanca inocentes no outro

maio 07

Posta banana num dia, espanca inocentes no outro

Eu não sei quando foi exatamente que a humanidade voltou a agir sob o Código de Hamurabi. Sabe aquela coisa do ‘olho por olho, dente por dente’? Então.

Para quem não acompanhou, uma mulher morreu nesta segunda-feira (05/05/14), no Guarujá, litoral paulista, após ser linchada e espancada dois dias antes, pelos moradores do bairro de Morrinhos, que ACHARAM (do verbo não ter certeza, sabe?) que ela era a suspeita de sequestrar duas crianças para fins de magia negra.

De acordo com as notícias divulgadas sobre o assunto, a investigação policial aponta para o rumor como motivo do crime e afirma que não havia nenhum boletim de ocorrência sobre sequestro de menores na região. A informação da tal sequestradora que nem sabemos se realmente existe foi divulgada no Facebook, numa fanpage chamada ‘Guarujá Alerta‘.

O boato, infundado e irresponsável, culminou na morte Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, que – vejam só vocês! – não era a tal suspeita. Ela era apenas uma dona de casa comum, casada e mãe de duas filhas, uma de 12 anos e outra de um ano e meio.

Os vídeos do linchamento público estão por aí  pipocando na timeline de todos nós, ou nos canais de televisão, que assistimos indignados à barbárie humana. Assistimos e pior: compartilhamos. As cenas são assustadoras: Fabiana foi amarrada, espancada e arrastada. Recebeu pauladas na cabeça sem nem conseguir reagir à atrocidade que estava vivendo. Ou, melhor dizendo, morrendo.

no violenceFoi humilhada no meio de uma roda de pessoas comuns, como ela. E sabe o que mais me chamou atenção? O fato de algumas pessoas ao redor eram contrárias à ação do linchamento. UFA, né? #sóquenão. Porque essas pessoas foram passivas e, não só registraram esse ato de violência como fotos e vídeos, como ao invés de chamar a polícia ou tentar impedir esse absurdo de alguma maneira, acompanharam Fabiana, já desacordada, ao ser arrastada, literalmente, para o fim de sua vida.

[Como isso aqui é um blog Sem Critérios, disponibilizo o link para quem quiser assistir. É só clicar aqui. Mas, sinceramente, não recomendo. As cenas são chocantes e não vejo sentido em dar audiência para isso. A escolha é de vocês, é claro.]

Em fevereiro deste mesmo ano, um menino de apenas 15 anos que foi preso pelo pescoço com uma trava de bicicleta em um poste no aterro do Flamengo, zona sul do Rio, e foi espancado, segundo ele, por cerca de 30 homens que estavam em 15 motos. Os agressores, segundo o menor de idade, não usavam capuz. O Brasil se chocou. Mas certamente já esqueceu. Porque em poucos meses, Fabiana morreu. Linchada. No meio da rua. E ninguém fez nada – NADA – para impedir.

Fazendo uma breve análise baseada na minha incrível vivência de 28 anos, nas minhas próprias opiniões e no achismo que tenho do mundo, pensei em algumas coisas.

A primeira é que ou a sociedade entende de uma vez por todas que não é porque sua conta no Facebook, Twitter, Instagram ou de qualquer outra rede social é de propriedade particular, que não interfere na vida pública. A partir do momento que você expõe seus pensamentos para amigos e/ou seguidores, você está buscando ‘curtir’ e compartilhamentos. Ou seja: você está buscando aprovação coletiva, você quer que seus amigos virtuais pensem da mesma maneira que você e compartilhem suas mesmas ideias.

Por isso, qualquer post infundado que não tenha fontes confiáveis e não cheque as informações, não passa de boato, mas pode virar verdade absoluta para sua rede de amigos. Minha dica é: se você quer se sentir útil para a sociedade e compartilhar informações que acha de extrema importância para o mundo, tenha bom senso: CHEQUE a droga da informação para ver se você está dividindo verdades ou mentiras. Simples assim. Se você quer bancar o jornalista, aja como um de verdade.

Como nem todo mundo tem esse entendimento, o resultado é espancamento de inocentes na rua. Afinal, estava lá no Facebook que ela era culpada, certo? Mas quem vai responder por esse crime? Mark Zuckemberg? Os criadores da fanpage igualmente irresponsáveis porque deixam postarem qualquer tipo de acusação publicamente? Quem bateu? Quem amarrou? Quem filmou? Quem publicou? Quem assistiu?

Foto: Goole ImagesOutra coisa que não sai da minha cabeça é que há apenas uma semana estávamos, não só o Brasil inteiro, mas o mundo todo, unidos contra o racismo, postando fotos com bananas com a hashtag #somostodosmacacos, solidários à campanha que Daniel Alves alavancou (não importa muito o fato de ter sido ou não pensada por uma agência) depois de sofrer publicamente um ataque de preconceito, na Espanha. Somos o país sede da Copa do Mundo, que acontece em  pouco mais de um mês. Somos esse orgulho de ser brasileiro, essa nação verde e amarela, essa torcida unida. Somos as belas praias, mulheres gostosas, samba, caipirinha e coxinha. Mas somos, acima de tudo, um bando de hipócritas que não entende que, culpada ou não, Fabiana não merecia ser linchada até a morte em praça pública. E fim.

Cada vez mais a sociedade brasileira se torna refém de suas próprias atrocidades (“Ah, mas é claro que foi estuprada, tava usando mini-saia e decote”;  ‘Se não quer que roubem seu celular, não usa ele na rua”, “Bem-feito por ter sido assaltado: quem mandou parar no farol de vidro aberto?”). Estamos em 2014 e temos uma mentalidade medieval.

Ontem, na Avenida Paulista, havia uma campanha #juntaspodemosmais, que estava distribuindo apitos rosas para as mulheres. O intuito é usá-los em caso de perigo ou algum ataque. Apitar para pedir ajuda. A ideia parece genial, mas eu me pergunto: quantos linchamentos uma boa ação dessas pode gerar?

Sinto que, a cada ano que passa, a humanidade retrocede mais. O linchamento de Fabiana fez com que eu me sentisse numa grande encenação da Inquisição. Só que era vida real. Em 2014.

É impressionante como as pessoas ficam horrorizadas ao assistirem uma cena sangrenta de ‘Game of Thrones’, como o ‘Red Wedding‘ [spolier], por exemplo, mas acham que ‘bandido bom é bandido morto’; ou que ‘tem que matar mesmo um fdp desses’. A apresentadora do SBT, Rachel Sheherazade, que gerou tanta polêmica há alguns meses, é prova disso.

É preciso parar de estimular essa cultura de justiça com as próprias mãos. Caso contrário, morreremos todos. Porque se #somostodosmacacos, também #somostodosculpados.

Mais amor por favor

 

Talita Camargo, 28 anos, é jornalista e está sempre conectada. Apaixonada por livros e cinema, vive para viajar o mundo e adora carboidratos. Libriana, sofre com o conflito da dúvida e busca o equilíbrio. Acredita no amor sincero e, para ela, pensamentos positivos atraem coisas positivas. Sempre!
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4 comments

  1. Adriana /

    É Tali, muito bom seu texto. Pena que seja tão real, né? Eu acho que, no fundo, o ser humano ainda não evolui. Seja na Idade Media, quando queimavam as “bruxas” nas fogueiras, na época de Jesus, quando apedrejavam as “adúlteras”, atualmente quando mutilam genitálias femininas na África para que a mulher apenas faça sexo para “se reproduzir” ou nesse caso do linchamento. O ser humano é arrogante, egoísta, acredita ser mais do que o outro e, embasado por sensacionalismo, radicalismos e burrice, acredita poder impor suas vontades sobre seu semelhante. E de verdade, não sei se a humanidade será muito diferente daqui a 2014 anos. 🙁

    • Talita Camargo /

      É de um desânimo sem fim uma história dessas, Dri! Mas não podemos desistir de tentar, ne?

  2. sonia cardelino /

    ontem, Arnaldo Jabor fez um comentário muito pertinente sobre a onda de terror que assola o brasileiro. Linchamentos, crimes passionais, violência nas manifestações, no trânsito, e por aí vai. Inclusive o engajamento em movimentos que nem têm significado verdadeiro pro sujeito, mas significa colocar pra fora todo ódio e revolta acumulados. Não tento desculpar atos tão abjetos, mas justificar, sim, o comportamento doente que temos observado ultimamente. O povo brasileiro costumava ser alegre, cordato e pacato até demais, mundialmente reconhecido como afável e simpático. Todos estamos vivendo o massacre da democracia , a vitória da corrupção, da miséria, da falta de segurança bem debaixo dos nossos olhos, e nos sentindo amarrados, boquiabertos com notícias cada vez piores todos os dias, e pior de tudo” nos familiarizando” com tais atos de horror!! é muito difícil combater a raiva e o desejo de vingança que se apossa das pessoas a cada dia, e o resultado é esse comportamento totalmente sem parâmetros na nossa história.Desculpe me estender no comentário, na verdade uma pauta, mas a coisa tá mesmo muito feia, que se há de fazer?!!

    • Talita Camargo /

      Tia Sonia, concordo em partes. Porque se as pessoas não se contiverem no respeito ao próximo, aonde é que vamos parar? Violência gera cada vez mais violência. E fim. Vamos acabar numa guerra civil, no cada um por si, numa barbárie sem fim. Não dá para viver assim! 🙁

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