Que todas as mortes sejam felizes

abr 25

Que todas as mortes sejam felizes

Nós não estamos preparados para a morte. Por mais espiritualizados ou racionais que sejamos, nós – seres humanos feitos de carne, osso e coração – não estamos preparados para a morte. Sim, entendemos que alguém que já viveu 95 anos já mais que cumpriu sua missão em vida. Sim, sabemos que quando o câncer está consumindo alguém, é melhor que esse alguém descanse em paz e pare de sofrer.

 

Compreendemos tudo isso, mas ainda assim, não estamos preparados para a morte.

Não importa a crença ou religião: respeitamos, oramos, aceitamos o fim. Continuamos a viver e conseguimos, até, ser felizes. Mas nós estamos preparados para acordar, estudar, trabalhar, transar, casar, sorrir, sentir prazer, chorar e, até mesmo, sofrer. Mas não, definitivamente, não estamos preparados para a morte. Nós sabemos lidar é com a vida, isso sim! É mais fácil, é suave e sabemos que sempre podemos fazer algo de diferente para melhorá-la. Afinal, temos a certeza de que sempre haverá um amanhã.

Por mais desprendidos que sejamos, somos materialistas. Ah sim, somos! Queremos guardar todo aquele amor com a gente, para sempre. E por o amor ser abstrato, precisamos da prova físico para provar que ele é real, que existe e nos faz vivos. Guardamos, aliás, essa prova em forma de corpo em uma caixa, debaixo da terra, só para termos a certeza de que aquele amor estará sempre ali para nós. Porque saber apenas em nossos corações já não nos é suficiente.

Como mensurar e apaziguar a dor de ter que enterrar um pai, uma mãe, um marido, uma esposa, um filho, um irmão, um amigo? Como é que fica, quem fica?

Somos egoístas. Queremos aquele abraço quente, o beijo doce e o sorriso carinhoso todos os dias, sem exceções. Acreditamos que podemos acabar com as doenças, ultrapassar as barreiras da idade e vencer as grandes tragédias. Somos otimistas incansáveis de que viveremos, juntos, para sempre. Só que o ‘para sempre’, sempre acaba. E então ficam as lembranças, os sentimentos, as histórias. Mas a verdade é que não sabemos viver com a presença da ausência.

Não, nós não estamos preparados para a morte. Porque é ela quem nos lembra de que esquecemos de viver. E é seu gosto amargo que nos ensina que a vida é frágil. E se acaba.

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Talita Camargo, 28 anos, é jornalista e está sempre conectada. Apaixonada por livros e cinema, vive para viajar o mundo e adora carboidratos. Libriana, sofre com o conflito da dúvida e busca o equilíbrio. Acredita no amor sincero e, para ela, pensamentos positivos atraem coisas positivas. Sempre!
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4 comments

  1. Fernanda Barreira /

    Lindo texto, Ta! Realmente não estamos preparados para a morte. Por isso, cada dia mais acredito o quanto é importante aproveitar a vida…

    • Talita Camargo /

      Obrigada, querida! Em três meses, isso ficou BEM claro pra mim, rs! <3

  2. Adriana /

    Tali, acho que um dos seus textos que mais amei até agora. Fala de tabu. Fala daquilo que ninguém quer falar. E pior: fala a verdade. Eu, pelo menos, não estou preparada para a morte dos que eu amo e nem para a minha. Sabe quando estamos numa festa MUITO boa e não queremos que acabe? Acho que a vida é um pouco assim.

    • Talita Camargo /

      Ah! Obrigada, querida! Falei mesmo com o coração!
      Porque viver da ausência é realmente estranho! 🙂

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